Posts in the category: Resenhas Literárias

segunda-feira, julho 22, 2019

A IMPOSSÍVEL FACA DA MEMÓRIA - LAURIE HALSE ANDERSON

Sinopse: A adolescente Hayley Kincain e o pai, Andy, passaram cinco anos viajando de caminhão, fugindo das lembranças que os assombram. Agora, estão de volta à cidade natal de Andy para tentar levar uma vida “normal”, mas os horrores que ele testemunhou na guerra ameaçam destruir a existência de pai e filha. De mãos e pés atados, Hayley é obrigada a vê-lo ser lentamente derrotado pela depressão, e se entregar às drogas e à bebida para calar os demônios interiores. É então que seu próprio passado vem à tona, e o presente se estilhaça... anunciando um futuro totalmente incerto.O que você deve fazer para proteger a vida de seu pai quando a morte o está rondando? Que atitude tomar quando os papéis de pai e filha se invertem? E o que acontece quando aquele garoto encantador e divertido entra no seu mundo sem pedir licença e, pela primeira vez, você se vê pensando no futuro?Atual, surpreendente, irresistível, A impossível faca da memória é Laurie Halse Anderson no seu auge
★★★/5

Recebi A Impossível Faca da Memória faz uns dois meses da Editora Valentina e não esperei muito para começar a lê-lo. Quando li a sinopse eu fiquei bastante interessada, primeiro por que eu nunca tinha lido nada que abordasse o tema, segundo por que assuntos familiares são sempre delicados.

Cada família é única. Gosto de ler livros que falam sobre particularidades familiares, pois é muito fácil, para quem está de fora, julgar comportamentos dentro de uma casa. Porém, nós não convivemos com aquele grupo, então precisamos sempre pensar antes de falar o que pensamos. Não só com relação à famílias, certo?

Estou sempre em busca de livros que me mostrem pontos de vista diferentes e que me façam sair da minha bolha.

Em A Impossível Faca da Memória temos uma família diferente das que estamos acostumados. Pai e filha. Um pai que vive atormentado pelas lembranças do período em que esteve na guerra. Por si só já é um tema delicado e que, aqui no Brasil nós não vemos.

Depois de tudo o que li e assisti sobre os problemas psicológicos enfrentados por ex-combatentes, compreendo bem a dificuldade que esse pai enfrenta. Além de ter uma filha a quem cuidar e com quem se preocupar. Ou pelo menos deveria.

A depressão não é abordada diretamente durante a leitura, porém ela está lá. Depressão é uma coisa tão desgraçada que faz com que a pessoa deixe de se importar mesmo o bem estar de uma filha menor de idade, levando-o a abandonar o emprego.

Engoli o medo. Ele está sempre ali, e ou você se mantém na superfície, ou se afoga.

Apesar de ser um livro bem atraente pelo tema o qual aborda, é preciso citar que a história tinha tudo para ser emocionante e importante em um contexto geral, porém ele se perde em meio a um romance adolescente. Sim, eu gostei bastante de ler esse livro, mas não achei que o romance que Hayley se envolve não acrescenta muita coisa.

Durante muitas páginas é tudo o que temos. Aquele clichê sobre como começa um relacionamento entre adolescentes que estudam na mesma escola.

Ainda assim, não deixa de ser uma leitura emocionante. Você enxerga bem o sofrimento de Hayley e de seu pai. Sem contar que uma figura do passado reaparece para piorar as coisas.

Não é uma leitura pesada, é até tranquila de ler. Faz você pensar o que faria se estivesse ali dentro daquele livro. No geral a leitura é super válida e interessante, por isso eu digo que mesmo que você, assim como eu, não curta muito toda essa coisa adolescente, dê uma chance, pois no final você entende a mensagem principal.

Título original: A Impossível Faca da Memória
Páginas: 352
ISBN: 9788558890243
Selo: Editora Valentina

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terça-feira, julho 16, 2019

BRASILEIRO (A) É ASSIM MESMO, CIDADANIA E PRECONCEITO - JAIME PINSKY E LUIZA NAGIB ELUF


Sinopse: Este livro desvenda, de maneira clara e objetiva, as raízes e mecanismos da discriminação e do preconceito e suas implicações no exercício pleno da cidadania em nosso país. Escrito por dois militantes na luta contra a discriminação, o livro alerta contra atitudes preconceituosas e ações discriminatórias com as quais mantemos, freqüentemente, perigosa conivência. 

★★★★★/5

Estou cada dia mais convencida de que fiz a escolha certa ao criar esse blog para divulgar bons livros. Às vezes eu tento me convencer de que os preconceitos raciais, a homofobia, o machismo não são reais e que as pessoas que fazem esse tipo de coisa,  fazem unicamente para causar na internet.

Infelizmente não é bem assim. Infelizmente as pessoas conseguem atingir um nível de podridão inimaginável. Quando recebi Brasileiro é assim mesmo da Editora Contexto, pude entender como chegamos a 2019 e as pessoas ainda agem como se algumas vidas importassem menos que as outras.

O livro aborda de forma bem objetiva o quanto somos, no geral, em nosso dia a dia de fato preconceituosos.

Quando se diz, por exemplo, que toda mulher guia mal, e autor da afirmação se apresenta como homem, ele está, de fato querendo se colocar, por oposição, na condição de bom motorista, de motorista melhor que as mulheres. Mais ainda, o que ele procura é se identificar com o grupo de "homens" que, no seu discurso, forma um conjunto de motoristas superiores ao conjunto de motoristas formados pelas mulheres. Isto se constitui em atitude preconceituosa porque não há, absolutamente, nenhuma prova de que o simples fato de pertencer ao sexo feminino desenvolva nas mulheres alguma restrição intelectual ou motora que lhes dificulte a atividade de dirigir. E pode transformar-se em ação discriminatória (e, portanto, ilegal) se isso implicar em restrições à sua atividade profissional.

Confesso que estou prestes a emoldurar esse parágrafo e colocar na parede da minha casa e imprimir pequenos folhetos e entregar pela rua. É algo tão corriqueiro ouvir esse tipo de coisa que já se tornou normal. Mas eu ainda acredito que nós mulheres vamos chegar ao ponto em que não precisaremos mais lidar com frases ridículas como "só podia ser mulher".

Claro que Brasileiro é assim mesmo aborda vários outros temas com os quais estamos familiarizados. Só o título já é bastante sugestivo, concordam? Por que precisamos desse rótulo? A corrupção está cada dia mais escancarada e sendo denunciada. Não pense que só o político faz isso, viu? Levar a caneta do trabalho para casa, porque "a empresa tem muitas" é uma forma de corrupção.

Um capítulo interessante que gostei muito de ler foi "O Brasil imperial e o Brasil Real". Um capítulo curto, mas que abre nossos olhos para algo que sempre esteve aqui. Há quem diga que só os políticos de hoje nos roubam. Mas não é bem assim.

Se hoje vivemos com tantas denúncias contra a má aplicação do dinheiro público não pé com certeza, porque não houvesse corrupção naquela época, mas porque não havia liberdade de imprensa para que as denúncias fossem  publicadas. Quem se escandalizou com a ingênua e deslumbrante atitude do ex-ministro Magri ao "humanizar" a cadela levada ao veterinário em carro oficial, não teria como reclamar dos donos do poder, que cometiam arbitrariedades e irregularidades bem mais graves contando com o silêncio que o temos legitima para acobertar seus atos.

É o tipo de livro para darmos de presente para aqueles familiares sem noção, amigos que falam besteira em excesso e, também, um guia de como sermos pessoas melhores.

A Editora Contexto tem um catálogo tão incrível e tão a minha cara que não consigo expressar em palavras a gratidão por tê-la como parceira do blog.

Deixo minha recomendação aqui especialmente para o último capítulo intitulado  "O preconceito nosso de cada dia".

Título original: Brasileiro(a) É Assim Mesmo. Cidadania e Preconceito.
Páginas: 112
ISBN: 9788572440318
Selo: Editora Contexto.
Compre na Amazon.

segunda-feira, julho 15, 2019

FUI - NILZA REZENDE

Sinopse: Clara é uma mulher de meia-idade que parece ter tudo que precisa para ser feliz: é professora universitária, tem uma filha com quem se relaciona bem e um ex-namorado ainda presente. Todos se surpreendem quando ela decide dar uma pausa no cotidiano e, com o pretexto de aprender Inglês, viaja a Malta – pequeno arquipélago no Mar Mediterrâneo entre a Europa e a África.

Enquanto ainda no embarque no aeroporto Galeão, o passado ronda os pensamentos de Clara. Machismo, jogos de poder, traições, desencontros. Quantas violências e opressões cotidianas cabem na história de uma mulher? A temporada na ilha de belíssimas paisagens é capaz de curar cura feridas e promover poderoso reencontro de Clara consigo mesma. Ela também se entrega, com ousadia e libertação, a paixões inesperadas.


Fui pode parecer uma versão latina de Comer, rezar e amar, o best-seller de Elizabeth Gilbert. Mas o romance da experiente escritora Nilza Rezende vai além disso. Feminista sem ser militante e doce sem ser piegas, Fui é uma viagem caleidoscópica que permite conhecer um dos lugares mais belos e interessantes do planeta, mas também faz voos sorrateiros sobre o Brasil atual. Impossível não se deixar levar pela fascinante ousadia de quem descobre que sempre é tempo de realizar seus sonhos e ser feliz.
★★★★/5

Quando recebi a proposta para ler esse livro, confesso que fiquei um pouco receosa, visto que me lembrou muito "Comer, amar, rezar". Na própria sinopse é citado. Minha experiência com o livro de Elizabeth Gilbert não foi muito boa. Na época, eu demorei para conseguir ler e, sinceramente, não gostei tanto assim.

Mas preciso dizer que foi uma grande surpresa quando cheguei ao final de Fui com a sensação de ter tido uma das melhores experiências da literatura nacional atual.

Tudo bem que o fator "escritora brasileira" contribuiu bastante para esse resultado, mas, no geral, a história de Clara é muito interessante e divertida. Fiquei pensando que poderia ser eu ali, sem uma filha, lógico.

Gosto muito de ler histórias de brasileiros que viajam para qualquer lugar no mundo. É sempre um grande aprendizado e de certa forma acabo conhecendo uma cultura diferente através das palavras do escritor. Afinal, o meu amor aos livros é basicamente por esse motivo.

Os capítulos são bem curtos, coisa de duas páginas e você se prende naquele momento da leitura, você se envolve com os personagens. Além disso, um dos motivos pelo qual aceitei a recomendação de leitura pela Oasys - grande parceira aqui do blog - foi a frase "feminista sem ser militante e doce sem ser piegas".

Já comentei algumas vezes aqui no blog que sou sim feminista, porém não sou militante, então logo de cara me identifiquei; e sobre ser doce sem ser piegas? Nem preciso explicar.

Em vários momentos, a Clara conta situações em que passou durante sua viagem em que o machismo estava lá, presente e bem parecido com o que muitas de nós mulheres já passamos sem nem perceber.

O mundo é machista: quando se está sozinha e se é mulher, reservam para você o pior lugar. Sabem que você é bobinha e ficará constrangida de reclamar; enquanto aquele canto bem melhor, no hotel ou no restaurante, ficará disponível a homens ou a famílias, com potencial de consumo muito maior do que o seu e também, obviamente, com uma voz mais grossa para fazer barulho.

Eu gostaria de colocar aqui nesse post todas as frases de impacto que marquei no livro, mas ai eu teria que copiar basicamente o livro todo. É cada frase que em poucas linhas te ensinam tanto que chega ao fim da leitura você quer ser uma pessoa diferente.

Mandamento 2: Não aceite qualquer coisa que te derem. Veja, compare, busque o quarto de hotel, a mesa no restaurante, o canto do escritório mais conveniente a você. Não deixe passar, o prejuízo pode ser fatal.
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Mandamento 20: Sorria na foto e na vida! Não há limite de idade para sorrir. Smile!
Sem dúvida foi um dos livros mais inspiradores que li esse ano. Não é só sobre viagem. É sobre liberdade, é sobre ser mulher e forte. É sobre viver da melhor forma e sobre escolhas.

No final das contas você percebe que não existe uma idade mínima para mudar sua vida.

Quero finalizar dizendo que o exemplar que ganhei da Oasys já tem um destino e depois outros: vou emprestá-lo a algumas mulheres incríveis da minha vida que precisam passar pela experiência de ler Fui, para que se inspirem também e sintam que ainda vale a pena lutar.

Título original: FUI
ISBN: 9788559080384
Selo: Tinta Negra.
Ano: 2019
Compre na Travessa.

segunda-feira, junho 10, 2019

LIVRO | QUANDO NINGUÉM EDUCA: QUESTIONANDO PAULO FREIRE - RONAI ROCHA

Sinopse: A crise na educação brasileira é inegável. A baixa qualidade das aprendizagens, a estagnação do desempenho escolar nos testes padronizados, a pouca relevância do aumento dos anos de estudo na vida do aluno, a crescente evasão escolar em todos os níveis, o aumento da distorção idade-série e tantos outros problemas são evidências disso. Mas onde se localizam as raízes teóricas da atual crise educacional que vivemos? Neste livro, o professor Ronai Rocha se dedica a desvendar e a compreender o pensamento teórico dominante no cenário educacional e pedagógico brasileiro. O autor realiza um movimento esclarecedor sobre as raízes da reflexão sobre educação no país, que incidem até hoje na formação de nossos professores. E mostra como uma maneira peculiar de ler Paulo Freire afeta o ensino no Brasil.


A Editora Contexto conta com um catálogo incrível para a formação de professores. Preciso me controlar para não pedir sempre os livros dessa seção, já que sou da área de educação e estou sempre buscando atualizações sobre o assunto.

O momento em que vive o Brasil atualmente é bem complicado para criticar ou defender ideias e digo que o professor Rocha foi bem corajoso ao trazer uma reflexão a respeito do modo como se lê Paulo Freire. Embora o livro seja de 2017.

Extremamente adequado aos dias atuais, ele propõe uma análise da forma como as ideias de Paulo Freire são aplicadas ao dia a dia escolar. Para quem não sabe, Freire é patrono da educação brasileira e era um grande pensador, estudado e admirado no Brasil e no mundo. Porém, tendo como base um pensamento socialista, ele propôs muitas ideias que, eu como professora atuante em sala de aula, acredito, estão sendo mal utilizadas.

Ao dizer em suas obras que "ninguém educa ninguém", Paulo Freire fez com que muito da autoridade do professor fosse anulada. Essa era intenção dele? Certamente não, porém a interpretação que se faz hoje dos textos dele são errôneas. 

É aquela velha história: a teoria é linda. Quando você vê na prática, temos alunos desrespeitosos, desinteressados e que mal mal estão aprendendo a escrever o próprio nome. Sim, já vi aluno errar a escrita do nome. 

Quero destacar, também, que muito do que Ronai Rocha propõe em seu estudo, vai contra muito do que eu penso. Por exemplo quando ele cita que a universalização do acesso à escola nos trouxe uma educação de baixa qualidade. A forma como ele coloca me fez entender que a escola não deveria ser para todos, mas continuar como era no passado, apenas para uma pequena parte da população. Corrijam-me se eu tiver entendido errado.

Além disso, ele cita que a escola é, por natureza, conservadora. É como se ele dissesse que a a escola - e o currículo - funcionavam antes e agora, depois que passou a ser mais democrática e acessível é que "desandou".

Confesso que tenho um problema muito sério em relação ao pensamento Freiriano, porém, sigo acreditando que é melhor que todos tenham acesso à educação, independente de ela ser boa ou não.

Para mim o pior de se ter o pensamento crítico social dos conteúdos como base, é que realmente você perde um pouco da autoridade enquanto educador, além de que a maioria das pessoas acreditam que o professor é responsável por 100% da educação da criança.

É um livro interessante, que traz uma reflexão muito boa a respeito do nosso sistema educacional atual e que, claro, tem pontos a discordar. Discordar é bom, gente. Você não precisa aceitar tudo o que te mostram como verdade. Você conhece a teria da caixa de bombom? Tem um vídeo no Youtube que explica essa metáfora e é a que eu levo para a minha vida. 

Nunca aceitar totalmente as ideias impostas e sigamos questionando tudo e todos.

Título original: Quando ninguém educa, questionando Paulo Freire

Páginas: 160
ISBN: 9788552000174
Selo: Editora Contexto.
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